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  • Dr Rodolfo Weidmann

7 principais dúvidas sobre Fibromialgia

Atualizado: 24 de Jul de 2020

Dúvida nº 1: O que é Fibromialgia?


A Fibromialgia é um diagnóstico desafiador na medicina, caracteriza-se por uma síndrome dolorosa crônica com sinais e sintomas relacionados com múltiplos sistemas do organismo. O Fibromiálgico apresenta, por um longo período, dores intensas e difusas nas articulações, músculos, tendões e em outros tecidos moles por todo o corpo. Este paciente também manifesta queixa de fadiga, insônia, desatenção, ansiedade, déficit de memória e outros distúrbios funcionais.

É a segunda doença reumática mais frequente, perdendo somente para Osteoartrite. No Brasil estima-se que esta presente em até 2,5% da população geral. Pode ocorrer em qualquer faixa etária, porém há um predomínio dos 35 aos 44 anos. A população feminina é a mais acometida, podendo chegar a uma relação de 13 mulheres para cada homem com fibromialgia, a depender do critério diagnóstico utilizado.

Nas últimas décadas, muitas evoluções aconteceram sobre aspectos fisiopatológicos da Fibromialgia. Hoje já se entende melhor aspectos genéticos, alterações nos sistemas autônomo e hormonal, a importância dos gatilhos periféricos, anormalidades psicofisiológicas e, principalmente, o papel de alterações estruturais e funcionais do Sistema Nervoso Central que levam a uma sensibilização central do processo de dor.


Dúvida nº 2: Qual exame diagnostica a Fibromialgia?


Apesar de uma variedade de apresentações clínicas, modulações de determinadas estruturas nervosas e alterações em neurotransmissores o diagnóstico da Fibromialgia é essencialmente clínico. Significa que, até o presente momento, não há nenhum exame laboratorial ou de imagem capaz de fechar o diagnóstico de fibromialgia. Entretanto podem ser solicitados alguns exames para complementar investigação e avaliar presença de um outra doença associada à Fibromialgia, já que o diagnóstico de fibromialgia não exclui a presença de outras comorbidades em conjunto.

Foram desenvolvidas duas principais propostas de critérios para facilitar o diagnóstico. Em 1990, por um comitê multicêntrico norte-americano, definiu critérios centralizados na presença de sinais e sintomas de dor difusa pelo corpo, onde existe dor em pelo menos 11 dos 18 pontos pré-determinados, os famosos “tender points”. Estes pontos devem ser pressionados com uma determinada força e realizado exame por profissionais treinados. Com os anos seguintes à aplicação dos critérios, observou que muitos pacientes apresentam múltiplos pontos dolorosos em outras localizações, ou que apesar de alguns pacientes não complementarem os 11 pontos, possuíam Fibromialgia e que variáveis emocionais alteravam o número de pontos palpáveis.

Diante da necessidade de aperfeiçoar os critérios diagnósticos em 2010 foram publicados novos estudos sobre o tema. Além da dor, passou-se a valorizar outros aspectos tão relevantes para vida dos pacientes, como a presença da fadiga, perda de memória e do sono não reparador. Neste critério trabalha-se com o Índice de Dor Generalizada (IDG) e a Escala de Gravidade de Sintomas (EGS). O uso dos “Tender Points” não mais obrigatórios, porém são úteis no diagnóstico, pois auxiliam a quantificar o quanto o estresse emocional ou a depressão estão influenciando o paciente fibromiálgico no momento do exame físico.


Dúvida nº 3: A Fibromialgia causa muita dor?


A dor musculoesquelética é o principal sintoma da Fibromialgia. Dor de característica difusa, podendo acometer os quatro quadrantes do corpo humano e o esqueleto axial. A dor inicia-se de maneira insidiosa, frequentemente na nuca, no pescoço ou nos ombros. Pode ser descrita como de queimação, peso, contusão ou até mesmo sensação de “exaustão” da região afetada. A intensidade da dor costuma ser de moderada a forte, chegando em muitas ocasiões ser incapacitante, limitando atividades da vida diária.

Os pacientes com Fibromialgia, no geral, apresentam certa dificuldade em localizar a origem da dor, sendo que alguns referem que quadro se inicia nos músculos, outros nas articulações, ossos ou nos “nervos”. Acompanhada da dor, alguns fibromiálgico referem que apresentam rigidez articular, sobretudo pela manhã. Contudo diferindo da Artrite Reumatoide, esta costuma ocorrer em curtos intervalos de tempo.

Há alguns pontos que distinguem a dor na Fibromialgia. O paciente pode sentir dor à estímulos normalmente não-dolorosos (alodínea), além de sentir uma intensidade aumentada dos estímulos dolorosos (hiperalgesia), comparado com pessoas sem este diagnóstico. Deve-se a isso a uma série de distúrbios no processamento central deste estímulo, que desencadeiam uma nocicepção alterada. Falamos que o paciente fibromiálgico tem uma dor central ou, mais recentemente caracterizado como dor nociplástica.


Dúvida nº 4: Além da dor, quais outros sintomas da Fibromialgia?


A fadiga, o déficit de memória, alterações no sono e no humor são extremamente prevalentes entre os pacientes fibromiálgico, sendo responsáveis por grande parte das limitações funcionais apresentadas. A fadiga está presente na quase totalidade dos pacientes, sendo mais marcante no inicio manhã e no fim do dia, além de se intensificar com atividades físicas e intelectuais. Paciente refere sensação de “desgaste emocional” ou “necessidade urgente de férias”.

É muito comum o paciente com fibromialgia relatar que acorda mais cansado do que antes de dormir. As alterações no sono são altamente prevalentes, porém dentro do mesmo distúrbio podem se apresentar de maneiras diversas. Os fibromiálgicos podem ter “sono leve”, aquele que causa despertar fácil, outros apresentam dificuldade em iniciar o sono, outros manifestam uma insônia terminal.

Uma manifestação presente em até 70% dos pacientes com Fibromialgia é a disfunção cognitiva, conhecida como “Fibrofog”. Caracterizada por problemas de memória, desatenção, dificuldade de aprendizado, processamento lento de informações e limitações na execução de funções. O “Fibrofog” é classificado entre os cinco principais e mais preocupantes sintomas da fibromialgia por pacientes e médicos. Sua presença leva a efeitos negativos sobre saúde mental da paciente, sobre a capacidade de manter relações sociais e familiares, além de realizar várias atividades diárias do cotidiano.


Dúvida nº 5: Posso ter Fibromialgia e outra doença reumatológica ao mesmo tempo?


Os sintomas da Fibromialgia são de certa forma subjetivos, favorecendo um amplo leque de diagnósticos diferenciais. A dor crônica difusa, a fadiga, o sono não-reparador, presença de sintomas cognitivos e somáticos, associados a falta de exames laboratoriais e de imagem objetivos, favorecem a confusão diagnóstica.

Na comunidade médica é imperativo que o diagnóstico de Fibromialgia não deve ser de exclusão, ou seja, todos os demais diagnósticos devem ser descartados para se dizer que tem fibromialgia. Porém isso não anula a necessidade de se investigar outros diagnósticos que podem justificar o quadro ou estar associado ao diagnóstico de Fibromialgia. Logo é extremamente útil um profissional capacitado para fazer essa investigação clínica.

Certas doenças reumáticas podem apresentar a dor difusa e a fadiga como sintomas iniciais ou associadas à Fibromialgia, como é o caso da Artrite Reumatóide, do Lúpus Eritematoso Sistêmico, da Síndrome de Sjögren e das Espondiloartrites. Entre as doenças não-reumáticas, o Hipotireodismo pode mimetizar sintomas fibromiálgicos. Há também outras síndromes que compartilham em comum sintomas de natureza funcional, como a Síndrome da Fadiga Crônica, a Síndrome do Intestino Irritável, a Enxaqueca e as Disfunções da Articulação Temporomandibular.


Dúvida nº 6: Qual melhor tratamento para Fibromialgia?


Simples seria se tivéssemos um tratamento único com um fármaco uma vez ao dia por um curto período curaria a Fibromialgia. Porém a fibromialgia necessita de uma atenção especializada e individual do médico reumatologista para oferecer medidas farmacológicas e, tão essencial quando, ações não farmacológicas, além da participação ativa do paciente em todo processo.

O primeiro passo é o paciente compreender a natureza dos seus sintomas, objetivos e etapas do tratamento. É necessário que o paciente enxergue que muito da sua dor se relaciona com a Fibromialgia, sendo a expressão de si mesmo. Esta etapa é primordial. Muitos pacientes negam esta etapa, pois seria uma comprovação de que “nem tudo está em ordem” ou que “estou perdendo controle da situação”. A psicoterapia entra neste ponto, possibilitando que o paciente melhor enfrente sua dor, assim como de tantos outros obstáculos.

O estímulo aos exercícios físicos, está entre as medidas reconhecidas como essenciais para o tratamento da Fibromialgia. A melhora dos níveis de serotonina, favorecendo controle da dor, depressão e distúrbio do sono, e o estímulo à produção de GH-IGF1, interferindo na dor e na fadiga são alguns dos vários mecanismos de ação descritos. Entretanto é fundamental entender que os resultados são esperados no longo prazo, porém duradouros.

Quanto ao planejamento terapêutico, muitos aspectos serão levados em questão antes da prescrição. Compreender a limitação da ação dos medicamentos, comorbidades associadas, fatores periféricos que funcionam como gatilhos para dor, além da influência dos aspectos emocionais. Há muitas opções medicamentosas levantadas em estudos, porém há convergência das principais, mais seguras e eficazes medicações dentro da comunidade médica brasileira e internacional de Reumatologia.


Dúvida nº 7: Acredito ter Fibromialgia, quem devo procurar?


A Fibromialgia é uma doença complexa, que desde sua apresentação clínica, possui limitações pela ausência de exames complementares diagnósticos e achados característicos no exame físico. Seu diagnóstico também varia com o julgamento clínico de cada médico, sendo comum que o paciente demore mais de 1 ano até definir o diagnóstico de Fibromialgia e neste curso passe por dois ou três médicos.

O Reumatologista é o profissional médico que está capacitado para avaliar inicialmente o paciente, buscar diagnósticos diferenciais e associados, definir o diagnóstico de Fibromialgia e propor estratégias terapêuticas. O Reumatologista vai conseguir auxiliar o paciente a entender sua doença e orientá-lo na busca de outros profissionais de saúde para complementar o tratamento, como Psicólogos, Fisioterapeutas, Nutricionistas e Educadores Físicos. Um paciente bem orientado, sendo a voz ativa em seu tratamento, vai ser enfrentar a Fibromialgia, resultando num melhor controle dos sintomas e no ganho diário em qualidade de vida.




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