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  • Dr Rodolfo Weidmann

Será que posso ter Gota?

Atualizado: 24 de Jul de 2020

O que é Gota?

Gota é a mais prevalente artrite inflamatória do mundo. Ela é a principal representante do grupo das artrites microcristalinas. Ela ocorre devido os níveis de ácido úrico estarem sustentadamente altos e por longos períodos, levando a formação e depósitos de pequenos cristais ao redor das articulações. Ter os níveis de ácido úricos elevados não significa que a pessoa tenha Gota, porém aumenta muito suas chances. Em um estudo recente observou que ter o ácido úrico acima de 8mg/dL aumenta o risco em 5 anos de desenvolver a doença Gota em 4,8% dos homens e 2,3% das mulheres.

Como a Gota se manifesta?

A crise de Gota acaba sendo o marco de manifestação da doença, apesar da doença e suas consequências já terem se iniciado antes disso, com longo período sustentado e elevação dos níveis de ácido úrico na corrente sanguínea e com a deposição de cristais ao redor das articulações. A Crise de Gota é uma intensa resposta inflamatória, com dor muito intensa. Geralmente a primeira crise se inicia pela noite, em alguma das articulações do pé ou tornozelo. Ela é desencadeada por consumo em excesso de comidas ricas em purinas, consumo de álcool, desidratação ou por descompensação de uma outra doença que o paciente possua previamente.

Além da dor expressiva, observamos edema e rubor na articulação acometida com descrição dos pacientes de não suportar o toque ou pressão no local da crise. Quando acomete alguma das articulações do pé, o paciente relata grande dificuldade em caminhar. A dor atinge seu ápice de intensidade em 24 horas, com resolução dos sintomas em menos de 14 dias. É comum após uma crise passar longos períodos sem novos episódios, onde alguns pacientes acreditam terem se “curado”. Porém sabe-se que a probabilidade de um novo ataque em 5 anos após o primeiro é superior a 90%. Com a repetição das crises, virão algumas consequências, como a formação de tofos (que são estruturas organizadas de cristais de urato monossódico), alterações estruturais periarticulares e inflamação persistente, passando a chamar de Artrite Gotosa Crônica.

Quem são os pacientes com Gota?

Resultados de estudos recentes estimam que a prevalência da Gota possa chegar até 6,8% e uma incidência de 0,58 a 2,89 por 1.000 pessoas por ano. Esta doença, diferente de grande parte das demais doenças reumáticas, acomete mais os homens, numa proporção de 6 homens para cada 1 mulher. Acredita-se do efeito protetor à hiperuricemia causado pelo estrogênio, levando a um aumento da incidência na mulher após a menopausa. Além disso, o aumento da expectativa de vida está contribuindo para a crescente prevalência de gota em todo o mundo. Encontramos a prevalência de 1% na faixa de homens dos 35 aos 45 anos, aumentando para 7% quando idade superior aos 65 anos.


Como a dieta contribui para o desenvolvimento da Gota:

Diferentes hábitos de vida podem interferir no nível sérico do ácido úrico e no risco de desenvolver a Gota. O aumento do consumo de álcool eleva o risco. Dentre as bebidas alcoólicas, a cerveja apresenta o maior risco, seguida por bebidas destiladas e bebidas ricas em frutose. O Consumo de alimentos ricos em purina, presente na carne vermelha, frutos do mar e mariscos aumentam a incidência de Gota. Por outro lado, vegetais ricos em purina não parece que influenciam no risco de gota e o consumo de Café, Vitamina C, leite e derivados e cerejas diminuem este risco.

A obesidade é um importante fator de risco para a gota e é considerado um dos principais contribuintes para o aumento da prevalência e incidência de gota. Em uma meta-análise recente, observou que pacientes obesos, isto é, IMC maior ou igual 30kg/m2, foi associado a um risco 2 vezes maior de desenvolver Gota, comparado com uma pessoa não-obesa. Outro estudo demonstrou uma queda na incidência de 40% nas crises de Gota em pacientes após cirurgia bariátrica, num seguimento de 26 anos.

Além da dieta, quais outros fatores influenciam na ocorrência de Gota?

A presença de história familiar esta presenta em 40% dos pacientes com Gota, porém a depender estudos este valor pode chegar a 80%. Os principais fatores genéticos envolvidos influenciam no nível de ácido úrico na corrente sanguínea, devido alterações na excreção renal ou intestinal. Muitos casos que possuem um forte componente genético, evoluem de maneira mais agressiva e ocorrem mais precocemente.

Vários medicamentos sabidamente aumenta o risco de gota por alterarem a excreção de ácido úrico. Dentre esses, os principais estão os diuréticos tiazídicos ou de alça, Ciclosporina, Tacrolimus, Inibidores da ECA e os betabloqueadores. Porém nem todos medicamentos têm este efeito, alguns possuem efeito inverso, beneficiando os pacientes com Gota a terem níveis menores de ácido úrico, como é o caso da Losartana, dos Bloqueadores de canais de Cálcio e dos Fenofibratos.

Há uma série de outros fatores de risco que podem favorecer o desenvolvimento da Gota que devem ser expostos aos pacientes, para possível tratamento e controle dos níveis de ácido Úrico, como: Hiperlipidemia, Hipertrigliceridemia, Insuficiência Cardíaca, Psoríase e anemia Falciforme.

Como é feito o diagnóstico de Gota?

Como já dito, ter só o nível elevado de ácido úrico não possibilita afirmar que você possui Gota, são necessários outros elementos para fechar o diagnóstico. Idealmente, para afirmar que o paciente tem Gota, é necessário colher o líquido sinovial da articulação ou Bursa acometida e identificar a presença de Cristais de Urato Monossódico. Contudo esta análise dos cristais não é um procedimento de fácil acesso. Devido esta dificuldade, foi proposto em 2015 pela comunidade Americana e Europeia (ACR e EULAR respectivamente) um critério para classificar este paciente com Gota, avaliando várias características do episódio da crise aguda, presença de alterações de cronicidade, nível do ácido úrico, análise do líquido sinovial e achados de exames de imagem.


Como é o tratamento?

O tratamento da Gota é baseado em quatro pilares. O primeiro e fundamental, e acredito que o mais difícil, é a mudança do estilo de vida. É necessário que o paciente conheça a sua doença, entenda a importância de modificar hábitos dietéticos, perder peso e rastrear possíveis complicações que a Gota possa ocasionar. O segundo pilar é o tratamento das crises. Neste podemos fazer com anti-inflamatórios não-esteroidais, com a colchicina ou com glicocorticóides, porém a melhor escolha dependerá de características individuais do paciente que o médico conseguirá avaliar para propor ao paciente. Para paciente que apresentam episódios recorrentes, presença de Tofos, cálculos renais ou alteração da função renal são propostos os dois próximos pilares. Um deles é o tratamento Hipouricemiante que há várias classes de medicamentos que objetivam reduzir seu nível de ácido úrico a valores que impeçam novas crises e leve a regressão dos tofos, caso presentes. O último pilar é o tratamento com profilaxia anti-inflamatória, necessária após a crise e que durará alguns meses até que você consiga atingir o nível alvo do ácido úrico que não ocorram novas crises neste período.

Por que devo realizar acompanhamento após crise de Gota?

Ter uma crise de Gota é extremamente doloroso e limitante. Porém ela, inicialmente durará poucos dias e sabidamente teremos um longo período assintomático, chamado Gota Intercrítica, que apesar dos níveis elevados de ácido úrico não teremos novas crises. Entretanto o período entre as crises vai cada vez diminuindo mais, as crises vão se tornando mais intensas e as complicações articulares e extra articulares vão acontecendo. Tratar precocemente é essencial para evitarmos novas crises e minimizarmos sequelas. O paciente terá resultados a curto e longo prazo, e ao lado de um profissional habilitado, esses resultados serão otimizados.




Referência: Dehlin M., Jacobsson L.; Roddy E.; Global epidemiology of gout: prevalence, incidence, treatment patterns and risk factors. Nat Rev Rheumatol. 2020 Jul;16(7):380-390

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